Africa Consulting

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Desenvolvimento Humano e Relações Internacionais

CORAÇÃO DAS TREVAS

Em 1899 o escritor polonês Joseph Conrad diagnosticou em seu romance O Coração das Trevas/Heart of Darkness os interesses escusos, a violência e as arbitrariedades cometidas pelos “civilizados” imperialistas belgas (e por extensão por todos os demais países europeus possuidores de colônias no continente africano) no Congo, então propriedade do Rei Leopoldo II, monarca desse país. Mais de um século após, mesmo já liberto das amarras colonialistas a partir da década de 60 do século passado, a situação parece ter mudado muito pouco na hoje renomeada República Democrática do Congo. É o que nos conta de seu país o Padre Justin Munduala Tchiwala, graduado em Filosofia pelo Instituto São Pedro Canísio da capital Kinshasa além da formação de Estudos Teológicos no Instituto São Cipriano em Yaoundé, Camarões, entre os anos de 1992 a 1996.    

 

No Brasil desde 1997, membro da Congregação Missionária-Religiosa do Imaculado Coração de Maria, ele lutou pela melhoria da condição de negros e menos favorecidos na educação, iniciando então na cidade de Itabira-MG o pré-vestibular para alunos negros e de escolas públicas. Em 2003, foi transferido para a Paróquia N. Sra. de Fátima de Cabuçu, Diocese de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, onde permaneceu na direção até 2005. Em 2006, assumiu a função de Diretor do Centro de Direitos Humanos Dom Adriano Hypolito, na mesma Diocese. Nesta posição, o sacerdote e ativista social se notabilizou pela condenação da chacina da Baixada Fluminense, ocorrida em março de 2005 quando 29 pessoas foram assassinadas por policiais em Nova Iguaçu e em Queimados. Em sua opinião, à época, essas matanças não deixaram de acontecer pelo país: “Matam três pessoas aqui, outras cinco ali...”, afirmou, conclamando as autoridades municipais e estaduais para "...que a Baixada seja contemplada com políticas públicas para dignificar a vida das pessoas que aqui moram". De 2007 a 2008, pós-graduou-se como analista internacional na UFRJ. Essa febril disposição para a luta alimenta no vigário um saudável ceticismo pela implementação de verdadeiras transformações das condições dos menos afortunados no país: “Será que o presente melhorou? Ainda não. Então não podemos nos calar”.

 

A entrevista foi realizada pela Diretora da Africa Consulting, Profª Rita Barros, via e-mail entre os dias 15 e 27 de janeiro de 2013.

Padre Justin Munduala Tchiwala

RB: Inicialmente quero agradecer ao Pe. Justin pela disponibilidade e acolhida ao nosso convite, principalmente pelas importantes informações sobre o que está ocorrendo na República Democrática do Congo. Todos os leitores estão convidados para participar dessa reflexão que faremos a partir de agora. Deixem os seus comentários!

Pe. Justin, poucos conhecem o território africano e seus povos. Qual é, na sua visão, a principal beleza desse continente?

 

PJ: Situado de um lado e do outro da linha do Equador, o continente africano oferece uma gama de variedades e diversidades tanto na sua fauna quanto na sua flora. Podemos partir da floresta na região equatorial passando pela savana até chegar ao deserto. Exuberantes rios e lagos (como Nilo, Congo, Zambeze, Senegal, Chade, Tanganyika etc.) banham o continente, auxiliando na pintura de uma maravilhosa paisagem de jogos de cores naturais. A alternância de montanhas, colinas, vales e planícies no leste se conjugam para formar uma escultura de beleza ímpar.

A diversidade linguística leva à outra diversidade, cultural, onde, dentro do mesmo país, pode-se navegar de uma cultura a outra, de uma língua para outra, com tamanha naturalidade como se fosse passar por diferentes países. A hospitalidade, a alegria, o valor da vida, o senso religioso, a solidariedade, a arte, música e dança são alguns elementos que podemos ver no componente populacional desse continente.

 

No subsolo prolifera infinita diversidade de riquezas, como se a natureza escolhesse apenas aquele continente para esbanjar tudo quanto tinha da sua generosidade: petróleo, ouro, diamante, cobre, estanho, ferro, urânio e, agora, o colombo tântalo (coltan) etc., motivo de desejo internacional voraz e razão de guerras alimentadas em vários cantos da África. 

Imagem Nicolas Raymond, 1126105. Peninsula do Cabo, Africa do Sul

 

RB: Quais são, na sua opinião, as principais características e peculiaridades do povo da República Democrática do Congo?

 

PJ: Em geral, falar de características principais do Congolês é pintar aquilo que é conhecido por todos quando se fala do negro africano em geral: povo alegre, que ama música e dança, trabalhador e, na condição de hoje, lutador, hospitaleiro, solidário, onde há fortes laços na vida comunitária (sentido de família, clã, povo e sociedade) impactando na vida do indivíduo, que existe e se realiza através da comunidade. Povo religioso por natureza, com crença sólida na vida que continua após a morte, pacífico e de fácil relacionamento. Povo multicultural que desde cedo convive num espaço intercultural. Assim, pode adaptar-se em qualquer outra sociedade sem dificuldade.

 

RB: O senhor identificaria uma grande quantidade de etnias em seu país?

 

PJ: Não sei a conotação ou sentido da palavra etnia nessa pergunta e nem posso responder segundo o sentido a ela atribuído pelos sociólogos ou antropólogos, especializações que não possuo. Entretanto, há uma diferença prévia a se estabelecer entre etnias, tribos, povos, etc. que não é o objeto desta entrevista.

Quando você fala de etnia, não sei se você entende por lá os que falam a mesma língua, diferente da dos outros, tendo a mesma cultura e pertencendo a um mesmo grupo. No Congo, como na África, em geral, numa época bem remota, na raiz de cada grupo populacional, a língua distinguia os povos. Com o fenômeno migratório e os contatos entre vários grupos ou várias tribos, pelo processo de aculturação ou assimilação, um grupo ou uma tribo passa a falar a língua do outro. Portanto, a língua não pode ser considerada hoje como fator principal para distinguir uma etnia da outra.

Os historiadores elencam uma variedade de 200 a 450 línguas!(i). O historiador Isidore Ndaywel è Nziem fala de 365 etnias no Congo (ii) sem, entretanto, entrar em detalhes de pequenos grupos que, acredito, não foi possível tomar em conta. Historiadores, sociólogos e antropólogos estão de acordo em classificar os povos do Congo em quatro principais grupos: bantu, sudanês, nilóticos (camitas) e pigmeus. Classificação essa feita na base de dados linguísticos. Classificação que pode ter uma ligeira alteração tanto em relação aos nomes quanto ao conteúdo, dependendo de cada autor(iii).

 

RB: Pe. Justin, nos situe no atual sistema de governo na RDC?

 

PJ: Como o nome do país sugere, entende-se que o país deveria ser uma república, com sistema de governo democrático, com a pretensão de um Estado de Direito tendo, em princípio, a separação entre os três poderes. O regime é semi-presidencial. Todavia, os fatos tendem a desmentir tal pretensão.

 

RB: Quando foi a última vez que o senhor esteve no Congo?

 

PJ: Minhas últimas férias que ocorreram de 07 de fevereiro a 04 de junho de 2012. Passei quatro meses no Congo e, assim, pude me atualizar sobre a situação que ali prevalece, tanto no campo político como socioeconômico e cultural. Tive a alegria de participar no vigésimo aniversário dos Mártires da Democracia em 16 de fevereiro de 2012, celebrando a memória da Marcha pela Reabertura da Conferência Nacional interrompida pelo regime Mobutu e Nguza Karl i Bond, 20 anos atrás, apesar da forte repressão do atual governo que mostrou ser mais autoritário do que o regime de Mobutu. A caminhada reclamava a verdade das urnas, pois o povo entendia que as últimas eleições não foram transparentes e houve fraudes(iv). 

Refugiados veem helicóptero da ONU aterrissar em campo das forças de paz

(Uriel Sinai / Getty Images)

RB: Vamos falar sobre a situação de guerra civil na República Democrática do Congo. Ela teria suas raízes a partir da independência, na década de 60 do século XX, e nas fases de luta pelo poder que se sucederam. Agravada desde os anos 90, motivações políticas, étnicas e interesses internacionais são os elementos que colaboraram para a construção de um cenário de destruição e violência segundo a imprensa. Em sua opinião, por que o conflito em seu país é tão difícil de ser encerrado?

 

PJ: Concordo com a observação. Entretanto, não sei se podemos afirmar que a guerra civil tem suas raízes na RDC logo após a independência. Depende, mais uma vez, do que entendemos por guerra civil. Muitas vezes os conflitos armados na África são reduzidos à mera questão étnica ou de guerra civil. Isso tem como implicação a indiferença total do mundo perante a exterminação do povo que ali se encontra. Há quem avance a tese de recolonizar a África para conseguir a paz. Saudosismo do tipo neocolonialista, com certeza. Para não me alongar, quero dizer aos que não entendem a realidade da RDC, que não há guerra civil nem étnica. Pois nesses grupos armados encontram-se as mesmas tribos ou etnias dum lado como do outro de grupos em conflitos. E em cada grupo rebelde, há várias culturas, línguas, povos misturados. Se houvesse guerras étnicas o Congo, com mais de 450 grupos étnicos, nunca teria uma consciência nacional. O que é falso. Onde há apenas dois ou três grupos étnicos dominantes, como em Ruanda e Burundi, ali podemos reduzir as rivalidades à questão étnica, mesmo se a realidade e os fatos comprovam a instrumentalização da questão étnica.

Devemos considerar o fato de África entrar na era da Guerra Fria logo após sua independência. É fato que muitas potências coloniais não quiseram aceitar a independência de suas colônias. A Bélgica queria que a RDC ascendesse à independência somente a partir da década de 80 do século passado. Angola ainda permaneceu sob o regime colonial até 1975.  A África do Sul aboliu a apartheid em 1990 com a libertação de Mandela após 28 anos de prisão. Como em outros países da África, houve muitas tentativas de boicote ou entrave ao processo da independência pelos colonizadores. A Bélgica promoveu abertamente a secessão do país, com a politica de dividir para melhor reinar. A província de Katanga de Moise Tshombe já estava nas mãos de para-comandos belgas e mercenários que eles alugaram. Os Estados Unidos entraram no jogo para aniquilar a influência cada vez mais crescente do primeiro ministro Patrice Emery Lumumba que era muito estimado pela população e chamado de Pai da Independência do Congo, acusado de ser socialista(v). As duas províncias do Kasai também ameaçavam separar-se. Assim, podia-se elencar no país as rebeliões de Tshombe em Katanga, de Mulele em Kasai, os grupos de Lumumba na Provincial Oriental, Kivu, uma parte de Kasai e Kinshasa, os grupos de Kasavubu, primeiro presidente, em Bandundu e Bas-Congo, estando a província do Equador nas mãos do chefe do Estado maior das Forças Armadas do Congo, o tenente-coronel Mobutu, que gozava da estima da CIA e que foi o mentor de vários golpes do Estado, partindo da prisão do primeiro ministro Lumumba em setembro de 1960 sob o olhar cúmplice dos Casques Bleus (força de manutenção da paz da organização, os capacetes azuis) da ONU(vi), até a ascensão dele ao poder em outubro de 1965.

Para entender a razão pela qual a guerra não termina na RDC é preciso conhecer os atores, direta ou indiretamente, em jogo de um lado e do outro, a geopolítica na região da África Central.  Brevemente, é preciso partir da independência em 1960 e dos 32 anos do governo Mobutu no país. Como já disse, ele recebeu todo apoio necessário dos Estados Unidos e da Europa para assentar o poder capitalista no meio de governos socialistas como Zâmbia, Tanzânia, Angola, Congo-Brazaville. O fim do socialismo decretado por Mikhail Gorbatchev, com a Perestroika, abriu a onda da democracia na África, particularmente nos países da Francofonia. Com o fim do socialismo, o jogo político na África passa a sofrer a extensão da influencia estadunidense de um lado e, de outro, a francesa. Uma tríplice aliança composta de Burundi, Ruanda e Uganda levará à queda da era Mobutu. Países que tiveram e continuam recebendo hoje apoio incondicional dos Estados Unidos. O genocídio em Ruanda e Burundi são outros fatores a se considerar, colocando esses países sob a proteção internacional, fora de sanções da comunidade internacional e no abrigo de ameaças por outros países, justificando desta forma a impunidade.

Desses países partirão milhares de refugiados hutus como tutsi para o Congo, não só antes como depois do genocídio em Ruanda e Burundi e, também, as forças armadas que ajudaram Laurent-Désiré Kabila a derrubar Mobutu do poder em 1997. Esses dois países entram em jogo, alegando caçar os Interahamwe, hutus refugiados no Congo, acusados de genocídio, além de outros interesses ocultos, como a tentativa de balcanização do Congo pelo governo ruandês frequentemente denunciada hoje em dia.

Quanto à exploração de matéria prima, basta o ditado onde há cadáver, ali estarão os urubus. A presença do petróleo, cassiterita, wolframato, gás natural, coltan (com os derivados columbita e tantalita, minérios de grande valor na indústria cibernética como para naves espaciais), diamante, ouro, marfim, inclusive a biodiversidade da fauna como da flora não escapam ao saque desses predadores e multinacionais. O analista político malaio Nile Bowie acusa os Estados Unidos de fornecer armas e prover treinamento de milícias e rebeldes ugandeses e ruandeses que invadiram a RDC de 1996 a 2003, guerra econômica de um lado e, de outro, para frear o avanço do gigante chinês no continente(vii). Onde essas potências apoiam uma exploração ou uma guerra, ninguém pode dizer nada e a opinião internacional se faz cúmplice de genocídio que ali prevalece pelo seu silêncio. É a lei do mais forte! Eis a única razão pela qual a guerra tende a continuar e não há como pôr fim nisso. Não podemos esquecer-nos da incompetência, incapacidade e irresponsabilidade das autoridades políticas congolesas que se deixam prostituir ao custo da vida de sua população. 

Coltan – RDC/Imagem hospedada na Aldeia Global

RB: A ONU declarou que o Congo é a capital mundial do estupro. O que está acontecendo lá? O estupro cometido é uma arma de guerra?

 

PJ: Infelizmente o crime de estupro é realidade como seu uso para fins bélicos. Há os que alegam que serve também para espalhar a Aids(viii) no meio do povo congolês, levando ao genocídio lento. O que mais revolta é que tal crime acontece debaixo do nariz da MONUC, hoje MONUSCO (Missão das Nações Unidas para a Estabilização da RDC), principalmente em Kivu, no leste. Em 2008, a MONUC alegava não ter suficiente pessoal para frear os ataques de rebeldes FDRL (FDLR - Democratic Liberation Forces of Rwanda) de Laurent Nkunda como também o grupo de rebeldes ugandês LRA (Lord´s Resistance Army, i.e., Exército da Resistencia do Senhor de Joseph Koni). Uma simples comparação nos dá uma ideia assaz revoltante: A MONUC tinha 17 mil soldados no campo, contra 5 a 6 mil homens da FDRL. Como a missão é de observação e não de paz, essa guerra já vitimou mais de 5 milhões de congoleses sob o olhar indiferente da comunidade internacional. Por isso, o povo acredita que a ONU atiça a guerra no Congo. Houve vários confrontos da população contra a presença da MONUC no Congo. E, segredo de polichinelo, ela cuida mais da exploração de riquezas do país do que da paz pela qual foi ali enviada. A cada vez, tenta penetrar mais no interior do país onde a presença dela não é necessária, porém, em lugares cheios de riquezas, agindo como qualquer traficante ilegal naquelas regiões ensanguentadas.

Rebeldes e milícias vão saqueando povoados, queimando suas moradias, estuprando mulheres na presença de seus maridos que eles acabam matando depois, levando meninas e mulheres como reféns e escravas deles, não somente para trabalhar, mas para servir de objetos de satisfação sexual. Muitas mulheres são reféns desses grupos. Em alguns lugares as mulheres não podem mais ir sozinhas pra trabalhar no campo. Estão sendo atacadas diariamente. O que degrada a situação social de um povo cuja renda provém da terra. Infelizmente, os soldados do exército nacional praticam os mesmos crimes contra a própria população. O estado está completamente ausente ou morto e a ONU fornece somente relatórios. 

Imagem Christian Aid e Will Storr

RB: O que o senhor pode nos dizer sobre o recrutamento de crianças para lutarem nesse conflito?

 

PJ: Crianças e adolescentes são vítimas de uma política desastrosa e caótica dos governantes. Esse recrutamento, ao meu conhecimento, iniciou-se com a chegada de Laurent-Désiré Kabila em sua incursão para tomar o poder, desde 1996. Apoiado pelos países supramencionados, ele ingressou com um exército de crianças e adolescentes apelidados de Kadogo em língua swahili, que quer dizer Menorzinho. Na fase de crescimento do ser humano, entendemos a psicologia do adolescente: rebelde por natureza, pois se opõe à autoridade parental em busca da construção da própria identidade ou personalidade. Portanto, é a fase por excelência de lavagem de cérebro com fim de domesticação da violência e rebeldia nele. E, não sendo totalmente responsável pelos seus atos, ele aprende a matar como se fosse brincadeira e está pronto a cometer qualquer tipo de crime sem refletir. Por isso são mais recrutados e também raptados pelos rebeldes e milícias. Podemos pensar nos adolescentes brasileiros no mundo do tráfico. Isso é triste demais, pois arma não pode ser brinquedo nas mãos de crianças. Elas não têm mais futuro. Elas matam e roubam, senão não sobrevivem. A situação se torna pior referindo-se ao futuro de uma nação, de um país. Quem é que vai construir a sociedade uma vez que a geração dos adultos passar? O futuro duma nação está completamente arruinado.

 

RB: Essa guerra estaria, dessa forma, produzindo mão-de-obra escrava?

 

PJ: Qualquer pessoa que executa um trabalho sem a própria vontade é uma escrava. Esses meninos, meninas e mulheres capturadas e levadas no mato para servir os rebeldes são escravos porque executam trabalho forçado. O próprio exército nacional está em situação de escravidão. Pois não é possível que a pessoa que serve a nação ou deve dar sua vida pela pátria receba um salário mensal de miséria estimado de 50 a 90 dólares. Os professores, médicos e outras classes trabalhadoras no país passam pela mesma situação. Por isso a situação do país se degrada cada vez mais, apesar de a riqueza do país estimada, no que diz respeito ao valor bruto de minérios, se elevar a 2400 trilhões de dólares.

 

RB: Na sua opinião, por que o mundo, de uma forma geral, não se    importa com o sofrimento vivido por milhares de congoleses?

 

PJ: Em primeiro lugar, o mundo não se importa porque não sabe da verdade sobre a situação da RDC. Não sabe porque não há versão correta veiculada pela mídia sobre as raízes da guerra que permanece nesse país. Alguns que se dizem especialistas da África fazem leitura unilateral tomando parte ou defendendo os interesses do local a partir de onde falam. Na era da velocidade das informações, a desinformação é a arma que usam os que detêm o monopólio da mídia para defender seus interesses, ainda que diabólicos sejam. Como diz o ditado: o fim justifica os meios. Infelizmente, e não é somente hoje, a busca da riqueza sempre dizimou populações e povos indefesos no mundo, desde a antiguidade. A própria escravidão e a história de colonização ainda testemunham tais fatos. Em segundo lugar, onde há potencias internacionais com suas multinacionais, os países de origem das multinacionais tendem a acobertar os crimes praticados por elas em nome dos próprios interesses. Dane-se quem se colocar na contramão de seus projetos! O mundo está em crise. A exploração ilegal de riquezas do país serve para enriquecer os países em crise, pois é lá que se encontra o destino final desses minérios de sangue. Eminentes autoridades da Bélgica e dos Estados Unidos declararam abertamente que a RDC é muito rica e não é justo que essa riqueza beneficie apenas um povo ou uma nação. Mas elas não sabem, ou melhor, não querem saber, que essa riqueza nunca aproveitou ao povo congolês que continua jazido na miséria. Por fim, enquanto os Estados Unidos continuarem com essa política internacional de apoio aos países agressores nunca haverá paz no Congo. É estranho que a comunidade internacional ainda não fale de genocídio após a guerra ter dizimado de cinco a seis milhões de congoleses. Eu mesmo continuo me perguntando o porquê dessa indiferença após tantos clamores já levantados em todos os âmbitos da comunidade internacional. Até o momento, a única voz de personalidades influentes que se levantou tantas vezes é a dos dois últimos papas: João Paulo II e Bento XVI. 

Minas de Coltan – RDC/Imagem hospedado no etleboro.blogspot

RB: Que mensagem o senhor gostaria de deixar para os brasileiros a partir dessa entrevista?

 

PJ: O Brasil hoje está conquistando espaço em nível internacional e se faz muito ouvir em qualquer momento em que aconteça uma cúpula dos Estados, seja no G20, nos BRICs e na ONU. Espero que as autoridades brasileiras não fiquem alheias e nem cúmplices do que acontece no Congo e peço que usem de sua influência para mudar essa política. Gostaria também de dizer que o modelo da Missão da Paz que o Brasil levou para Haiti seja a referencia para o conflito que prevalece no Congo. Seria bem melhor se a missão de MONUSCO hoje no Congo fosse sob o comando brasileiro. Chega de missão de observação que torna a ONU objeto de gozação(ix).

Na área econômica, o Brasil que expande seus negócios para África deve privilegiar o capitalismo humano e social, não a busca de riqueza pela riqueza, sacrificando e pisando na vida de muitos africanos que trabalham em suas empresas. Que ele promova também uma política econômica com decência, respeitando as leis dos países africanos e contribuindo para o bem-estar socioeconômico do povo africano. Enfim, se o mundo inteiro permanecer indiferente à questão congolesa, que o Brasil e seu povo, usando da diplomacia e outros meios ao seu alcance, manifeste bem forte a sua indignação perante o genocídio do povo congolês, em união com muitos que lá gritam e clamam por uma sociedade de direitos e o fim dessa guerra que foi exportada forçosamente para lá.

 

NOTAS:

i.Veja artigos sobre a República Démocratica do Congo pelos sites: http://fr.wikipedia.org/wiki/R%C3%A9publique_d%C3%A9mocratique_du_Congo#Ethnie; http://www.tlfq.ulaval.ca/axl/afrique/czaire.htm . Vou me referir nessa entrevista à monografia que fiz na conclusão da pós na UFRJ: Justin Munduala Tchiwala, cicm., Geopolítica Africana Pós-Guerra Fria na Região dos Grandes Lagos: Burundi, Rwanda, República Democrática do Congo, RJ, UFRJ, 2008.

ii.Ndaywel è Nziem I., Histoire du Zaire. De l´héritage ancien à l´âge contemporain, Louvain-la-Neuve, Duculot, 1997, carte 14.

iii.Para mais detalhes, veja os diversos volumes da HISTÓRIA DA AFRICA publicados pela UNESCO, também o livro do Silva (Alberto da Costa e), A Enxada e a Lança. A África Antes dos Portugueses, Ed. Nova Fronteira, RJ, 3ª. ed., 2006.

iv.Joseph Kabila Kabange foi reeleito presidente em 28 de novembro de 2011. A Sociedade Civil composta pelo Movimento dos Leigos da Igreja Católica, a Oposição Política e as organizações de Direitos Humanos denunciaram falta de transparência e fraudes que aconteceram de maneira descarada. No dia 15 de fevereiro de 2012, véspera da caminhada, os governos dos Estados-Unidos, Reino Unido, Bélgica e França reconheceram o governo de Kinshasa. O que foi tido como banho da água fria sobre o povo congolês.

v.Sobre a morte de Lumumba, veja Ludo De Witte, L´ASSASSINTA DE LUMUMBA, Paris, Karthala, 2000.

vi.Em agosto de 1960, a ONU já tentava derrubar o governo de Lumumba, dois meses apenas após a acessão do país à independência. É dificil pensar que a ONU esteve um dia no Congo para defender sua população. Cfr. A obra do De Witte é mais do que expressivo nesse sentido.

vii. Nile Bowie, L’AFRICOM des Etats-Unis et la militarisation du continent Africain : Le combat contre l’implantation économique Chinoise, abril de 2012. Pode encontrar a versão inglesa do mesmo artigo no site http://nilebowie.blogspot.com/2012/04/lafricom-des-etats-unis-et-la.html .

viii. Notícias e reportagens proliferam nos sites confiáveis sobre o uso do estupro para espalhar aids pelos rebeldes ruandeses, ugandeses, burundeses e mesmo congoleses na província de Kivu. Veja por exemplo Le viol comme arme de guerre: Le combat d´une survivante, Euronews, 27  de abril de 2012 e o  video Le viol, une arme de guerre au Congo, http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=5r_u-FDro6s#t=0s.

ix. Béatrice Pouligny, Ils nous avaient promis la paix.  Opérations de l´ONU et populations locales, Presse Sciences Po, Mayennes, 2004.

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